domingo, 27 de outubro de 2013

Na volta um convite

Realmente isto deve andar mesmo para estourar. Numa destas noites, de regresso de Lisboa a conduzir a 60 km à hora e por vezes a menos, por causa do dilúvio que até metia trovoada, de repente uma chamada para o telemóvel. Um conhecido, quase amigo, poderia dizer. Influente, mesmo influente. Ainda agora não sei se estava a gozar comigo. Queria saber se eu consideraria a hipótese de ser secretário de estado. Nem percebi bem de quê. Perguntei-lhe se estava a gozar comigo. Não respondeu. O silêncio prolongou-se e eu acabei por dizer-lhe que nem roupa tinha para isso, cada dia com um fato, e eu acho que não tenho fatos que cheguem. Aliás, sei que não tenho fatos que cheguem. O silêncio continuou do outro lado da linha. Perguntei novamente se estava a gozar. Ele finalmente voltou a falar. «Mudando de assunto», disse, «como é que vão as coisas consigo?». Pensei em responder-lhe que mais ou menos, que tenho poucos fatos e mais umas merdas. E que também não preciso de muitos fatos, aliás. Mas não, disse-lhe apenas que as coisas vão mais ou menos. «Almoçamos um dia?» perguntou-me. Disse-lhe que sim, que podia ser. E ele despediu-se. Despedi-me também, com a sensação de que ele ficou a pensar que esta noite não me convencia de forma nenhuma. Ou então que não tinha conseguido verdadeiramente gozar comigo. Mas talvez não estivesse a gozar. Se fosse um amigo mesmo amigo, ainda vá que não vá. Agora apenas um conhecido, quase amigo... Na volta era a sério e isto está mesmo a dar as últimas. Talvez acabemos por almoçar. E talvez nessa altura o convite já seja para ministro. De uma merda qualquer, uma pessoa nunca sabe. Se acontecer, repito-lhe aquilo dos fatos, que não tenho fatos suficientes. E que ainda poderia ser apanhado nalguma conferência de imprensa a dizer asneiras piores do que as do Sócrates agora nas entrevistas. Isto deve andar mesmo para estourar.