sábado, 29 de junho de 2013

À porta


O primeiro pirilampo do Verão, junto à porta da rua, onde se mantém já há alguns dias. Como se lhe coubesse velar pela casa. Noutros tempos, por exemplo os do já esquecido choque tecnológico, talvez se pudesse arriscar que servia para assegurar a ligação à Internet ou para apanhar a televisão por satélite. Agora não, é mesmo como se velasse apenas pela casa, atento a quem possa aparecer.

As vírgulas

Será que a Autoridade Tributária e Aduaneira não tem dinheiro para pagar umas aulas de português ao seu director-geral, a ver se ele passa a usar correctamente as vírgulas? Já agora, na parte do acordo ortográfico o texto traz uma inovação: ora segue o acordo, ora não segue; dá a ideia de que é conforme as linhas.

Exmo.(a) Senhor (a)
XXXX XXXX

Verificámos que exigiu a inserção do seu Número de Identificação Fiscal (NIF) em faturas relativas a aquisições de bens e serviços que efectuou.
Muito obrigado pela sua colaboração.
Como sabe, os comerciantes são sempre obrigados a emitir fatura em todas as transações que efectuam mas, a exigência de inserção do NIF pelos consumidores, garante que essas faturas são conhecidas e controladas pela Autoridade Tributária e Aduaneira (AT).
Esse seu ato simples é muito importante para si e para todos nós, porque, a partir de agora, a AT assegura os procedimentos necessários para que o IVA que pagou nessas faturas seja efetivamente entregue ao Estado e cumpra a sua função.
Ao mesmo tempo, a AT garante que o IVA que pagou nessas faturas não será desviado ilicitamente por quem não cumpre a lei e, impede esses agentes económicos de concorrerem de forma desleal com os que, cumprindo, criam emprego e riqueza.
Aproveito este momento para lhe manifestar a gratidão da AT e relevar a importância do seu papel neste projeto de cidadania que é, o novo regime de faturação, designado por sistema e-fatura.

Com os melhores cumprimentos,

O Diretor-Geral
José António de Azevedo Pereira

Nota: claro que isto das vírgulas pega-se; veja-se, por exemplo, como se escreve no ministério de Pedro Mota Soares, aqui.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Um dia, talvez...



Brinca-se aqui com um escritor. Ou goza-se, nem sei. Mais a sério, o post faz-me pensar que um dia, na minha terra, talvez me façam uma prisão-museu, eventualmente numa dependência da biblioteca. Ou aqui, pelo Alentejo, uma toca-museu no meio dos sobreiros, quem sabe até um núcleo museológico, se a toca tiver muitas ramificações.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fim


Chegar finalmente ao fim de um livro. Agora sucessivas leituras, para as correcções. Tantas coisas para ajeitar…

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Com a cabeça no céu


Lançamento do mais recente romance do José Eduardo Agualusa, «A Vida no Céu», quinta à noite, em Lisboa (livraria Ler Devagar). Apanhou-me no fecho da edição de uma das revistas da empresa, mas como os PDFs que eu tinha de ver estavam atrasados deu para passar por lá, ainda por cima sem grandes pressas. Comprei o livro à entrada e depois assisti a um canto à apresentação. Mais tarde, quando estava na fila para apanhar um autógrafo, da editora vieram-me dar um papelinho para escrever o meu nome e juntar ao livro; assim facilitava as coisas. Lembrei-me de que nos tempos da editora anterior dele a própria editora (a pessoa), quando eu estava a aproximar-me, tinha-se levantado da cadeira e tinha-me vindo perguntar o nome para apontar numa folha de papel onde já tinha uma série de nomes – dessa vez eu ia para dizer que achava que não era preciso quando o próprio Agualusa se levantou para me cumprimentar e isso acabou por fazê-la regressar à cadeira.
Bom, desta vez disse mesmo que não devia ser preciso. E recusei o papelinho. Continuei na fila, à espera, e a certa altura recebi uma mensagem no telemóvel a informar da situação em que estavam os PDFs. Quando acabei de lê-la, reparei que o projector da imagem do romance do Agualusa me apanhava a cabeça. Eu estava com a cabeça no céu, junto com os balões. Antes de guardar o telemóvel, tirei uma fotografia. Precisamente aquela ali de cima. E depois continuei a olhar para a minha cabeça no céu, era mesmo a minha, pois dava facilmente para notar o corte de cabelo com defeitos. Não pude foi deixar de estranhar que aparecesse a minha cabeça assim tão destacada, mas ao virar-me para trás percebi que isso tinha a ver com o facto de eu ser então a pessoa mais alta da fila. Não que eu me tivesse ido meter numa fila de anões para autógrafos (tal coisa talvez só no lançamento de um livro de Rosa Montero), nada disso, não dei nem com um que fosse. Mas eu era mesmo a pessoa mais alta. Tanto que a minha cabeça, ou antes, a sombra negra da minha cabeça, se destacava no céu da capa do livro onde apareciam os balões.
Estava a aproximar-me da mesa dos autógrafos, embora devagar. Atrás de mim, alguém queixou-se de que aquilo parecia uma repartição pública. E logo uma voz diferente falou da necessidade de meterem mais escritores na mesa a assinar. Ninguém se riu, por isso não deve ter tido graça. Entretanto, o casal à minha frente escrevia os nomes num dos papelinhos, tinham só um livro e o autógrafo era para os dois – o homem preocupava-se com o nome da mulher, que era estrangeiro e tinha de ficar escrito de forma legível para o autor perceber. Lembrei-me de que tinha dito um pouco antes que não precisava de papelinho. Conhecia o Agualusa dos tempos do «DN Jovem», há mais de vinte anos, ele já tinha apresentado um romance meu, eu já tinha num leilão de livros com ele e mais autores presentes vendido um exemplar de «Um Estranho em Goa» por 25 contos (quase mesmo a passarmos para o euro), e ele uma vez, provavelmente por falta de inspiração, tinha-me metido numa crónica. Não ia assim sem mais nem menos esquecer-se do meu nome. Ou de mim. Ainda por cima numa altura em que quase coincidíamos na mesma editora, ele a entrar com este novo romance e eu provavelmente já fora depois do meu último livro. Mas e se se esquecesse? Foi o que pensei. Sempre a olhar para a projecção do meu cabelo cortado com defeitos. E por isso acabei por tirar um dos cartões multibanco da carteira e juntei-o ao livro. Ele podia ver o meu nome no cartão, e em letra de forma, bem diferente dos gatafunhos que eu poderia escrever no papelinho. Quando nos cumprimentámos, ele ficou um bocado espantado ao ver-me com o cartão na mão. Mas não disse nada. Deve ter pensado que eu não estava bem e que não sabia ao certo o que fazia. Até porque depois de assinar o livro perguntou-me se estava tudo bem comigo. Já não me lembro do que lhe respondi.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Um dos ministros bate à porta


António Rosa Mendes (1954-2013)


Uma notícia muito triste. Encontrámo-nos apenas uma vez. Em Faro, numa livraria, numa noite de 24 de Abril. Ouvia-se a certa altura foguetes a rebentarem pela cidade, perto da meia-noite. Tinham marcado uma apresentação de um livro meu para uma noite de festa. O apresentador falava muito e, mais do que isso, cativava as pessoas, daí a sessão estar a prolongar-se. Já se tinha entrado num debate que parecia interminável, com o meu livro entretanto esquecido e a minha presença na mesa quase ignorada – o tema tinha passado a ser o Algarve e os seus problemas. Eu estava a mais, mas lá me ia aguentando. Na assistência tinha reparado numa cara conhecida, não de uma pessoa minha conhecida mas no sentido de ser conhecida por tratar-se de alguém importante. No final do debate, que não sei como foi possível que tivesse terminado, levantou-se discretamente do seu lugar e veio pedir-me um autógrafo. Não lhe perguntei o nome, como em muitos casos tenho de fazer. Mas ele disse na mesma. Na minha cabeça ele é que teria de perguntar-me o nome (pela minha insignificância se nos puséssemos com comparações), apesar de ter um livro meu na mão.

Notícia aqui. Foto: «Jornal do Algarve»

Apanhadas hoje


Só até aos joelhos

Não sei se hoje protestaram com alguém do governo. Desliguei-me das notícias logo desde bem cedo, ainda antes da hora em que essa gente costuma aparecer em conferências, seminários e outras sessões parecidas. Mais à noite hei-de ver, num dos noticiários das nove dos canais por cabo. Provavelmente risos, sorrisos, narizes (de cavacos, perdão, de palhaços), gritos, cartazes, assobios, inclusive um ou outro empurrão e um saco cheio de palavrões. Se fosse eu preferia atirar pedras, pequenas, tipo aquelas da brita mais miúda, e atirá-las baixo, talvez até aos joelhos, ou no máximo até à cintura. Para só magoar um bocado. Mais alto não, e à cabeça nem pensar, independentemente de ser de um careca ou não. Pedras, com a crise, é melhor do que gastar ovos ou tomates, a menos que seja dos que já tenham apodrecido, e aí sim, aí vale pena.
Há um do governo que estudou comigo. Seria, digamos assim, uma excepção, a juntar às mulheres, claro (tirando a dos suópes, que faz quase lembrar um homem). A esse se calhar tinha de lhe ir falar. Perguntar-lhe como é que se meteu nisto. Tinha de ir na defensiva, não por vergonha de ele ter chegado tão alto estando eu cá por baixo no povo mas porque me lembro de que cuspia muitos gafanhotos. Um guarda-chuva talvez me ajudasse, mas agora é Primavera e poderia parecer despropositado (embora esta Primavera seja também ela um pouco despropositada). Mas podia ser que tivesse a sorte de ele estar curado. De já não cuspir quando fala. Caso contrário, enfim, antes pedras, que me atirasse pedras a mim. Das pequenas, das de brita. E até aos joelhos, já se vê. Agora gafanhotos...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Lá fora


Sonhar nos vidros

Bem de noite. Não posso sair de casa porque mesmo em frente da porta, no sítio onde deixo a comida dos gatos, está uma raposa a jantar. Ou antes, a cear, dado o adiantado da hora (uma e treze da manhã). A raposa gosta da comida dos gatos, e não dá muita despesa porque é pouco maior do que um gato. Come como um gato, e é se eu a deixar em paz, se ficar apenas a observá-la, sem fazer um pequeno ruído que seja. Por isso não posso sair de casa. Já sei como é, já experimentei: abro a porta e ela corre o mais que pode em direcção ao montado; desaparece no escuro em menos de nada, como se se tivesse tratado apenas de um sonho meu, sonhado no vidro da porta.
Não sei se é possível sonhar nos vidros. Os sonhos são coisas tão antigas… Não devem dar para isso. Com as novas tecnologias é diferente. Numa entrevista, uma investigadora portuguesa muito conhecida falava das potencialidades que elas nos oferecem, ou podem vir a oferecer. Recomendou um pequeno filme onde algumas dessas potencialidades nos são mostradas, como num sonho. «A Day Made of Glass», é assim que se chama o pequeno filme, um dia feito de vidro. Não tem raposas. Pode-se ver no «YouTube». Parece que estamos a sonhar.

 

domingo, 2 de junho de 2013

Uma das romanzeiras


Um bocadinho de uma história no Alentejo

A caminho de Évora, por uma estrada muito estreita que permite poupar alguns quilómetros ao carro, lembro-me sempre da cidade brasileira de Ouro Preto. É na descida para a aldeia de São Brissos, pouco depois de passar por uma anta transformada em capela e onde em cada visita sempre encontrei um bicho estranho, mistura de vespa comprida e aranha perigosa, dominando uma teia junto à portinhola fechada a sete chaves. Acho até que num pesadelo que uma vez tive com uma aranha gigante era esse ser a caminho de assustador que entrava a fazer de artista principal. O ser da capela-anta, com as suas cores, o amarelo e o preto, no pesadelo apenas imaginadas, pensadas depois de acordar, porque nos pesadelos o normal é aparecer-me tudo a preto e branco, como acontecia na televisão quando ainda por cá havia a ditadura.
Há já uns tempos que não vou ver a aranha. Acho que depois do pesadelo nunca mais fui. O normal é passar pela estrada a uns cinquenta metros e depois de uma curva acelerar pela descida até São Brissos, e aí aparece-me a imagem de Ouro Preto, embora ao mesmo tempo pense nas proporções tão diferentes de cada um dos lugares. É a igreja enorme a dominar as poucas casas junto ao cemitério, no meio de todo aquele campo, que me traz a lembrança de Ouro Preto. E os montes, que por ali enganam a planície que se avista olhando para a direita, para o lado de onde ao longe dá para adivinhar o casario altaneiro de Alcáçovas.
São Brissos fica pouco antes de um enorme eucaliptal, que imagino de cada vez que o atravesso como sendo o maior de todo o Alentejo, mesmo que isso possa não ser verdade. A estrada estreita corta-o ao meio, serpenteando por uns poucos quilómetros até uma aldeia bem maior do que São Brissos, a de Valverde, junto da qual existe um pólo da Universidade de Évora. As lombas colocadas propositadamente na rua principal fazem-me passar por lá a dez ou vinte à hora, com o motor do carro uma vez por outra a ameaçar ir-se abaixo. Talvez por isso tenha logo na primeira passagem reparado num guerreiro que conheço muito bem desde criança (…)