sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Uma apresentação


Texto de suporte à apresentação de José Alberto Quaresma (na foto), em Monchique (15.09.2013), do livro de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (terceira edição, Just Media)

É bizarro que um mancebo de 18 ou 19 anos tenha andado a evitar atarantar-se no ISCTE, como estudante em Gestão. Acabou o curso e foi mais além. Mas por largos e esconsos momentos, quando ainda a barba lhe germinava preguiçosa, escapava-se para escrevinhar, embirrar com palavras, torcê-las até aos sorrisos, gargalhadas, perolazinhas de cloreto de sódio no canto do olho. Coisa que, em solitário, o entretinha há muito. Ninguém desconfiava.
Mergulhado nos gélidos salões do marketing e dos mercados financeiros, António Manuel estava destinado apenas a cumprir o que o apelido lhe impunha – Venda! Só que, sem pedir licença, resolve franquear o mui reservado couto de caça da grande literatura.
Trazia nas suas magras mãos uma pequena obra vestibular, a colectânea de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade». Publicou-a dez anos depois de escrita. Afoiteza? Nada disso. Talento apenas, embora dele não estivesse seguro.
A crítica foi apanhada descalça. Resignou-se. Aplaudiu muito. Não lhe fazia favores. O elegante latagão merecia-o. Tínhamos escritor. E dos grandes. Os prémios foram gotejando de santuários jurados e com inteira justiça.
O rapaz, para gáudio de leitores pasmados, continuou engalinhando com o verbo. Cresceu mais e fez crescer páginas e páginas que já somam uma dezena de títulos de ficção. Onde arranja cabedal para tão elevada qualidade? Não é na bolsa de valores. Sai-lhe apenas do corpinho, das noites mal dormidas e da cabecinha luminosa.
«Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», a mando de António Manuel Venda, ficou encalhado no título do livro que esconde as outras deliciosas narrativas do seu conteúdo. Esgotado e reesgotado, aparece agora, para nosso contento, em nova edição. A sugestiva compilação de textos deste contador de histórias profundamente original é de raro engenho, discurso conciso, irreprimível sentido de humor, imaginação transbordante nas esquinas dos vocábulos.
Venda tem mão pessoalíssima, na qual as suas bruxas do Selão tatuaram segredos que faz deslizar airosamente pelo real mágico e o surreal, através de uma linguagem popular despojada, infinitamente colorida e de grande leveza e densidade literárias. Desalinha inverosímeis e absurdas personagens pela sua serra de Monchique, pelo barrocal e litoral algarvios. Surpreende-nos com maciças e assombrosas situações que, de tão irreais, receamos que nos entrem pela casa adentro.
Venda consegue descrever as coisas mais banais, como a borbulha de um nascer do sol ou uma paisagem bocejante, com uma linguagem plástica digna dos mestres do impressionismo, da pintura ou música, sem tirar os pés da terra, a sua terra, ganhando a lonjura que lhe permite ver melhor.
Entra no universo mental da gente com uma argúcia e um entendimento sub-reptício singulares. Em três ou quatro palavras despe até à nudez indecorosa a mais composta das personagens, que são, lá bem no fundo, gente em quem encalhamos todos os dias. Não hesita em utilizar o vernáculo mais popular – de «filho da Puta» ou «ó dos cabrões» do nauseante e extinto Zé das Cabras a resmungar quando o picavam – para nos integrar atónitos nessa mole de que somos bem e mal feitos.
Venda é já parceiro dos grandes escritores nascidos no Algarve e o universo ficcional deste criador de enormes recursos estilísticos, sendo em grande parte regional, não deixa de atingir a universalidade. Ninguém como ele, a não ser Manuel Teixeira Gomes, conseguiu aproximar-se de forma tão sensível do Algarve e dos seus infinitos entalhes. O escritor portimonense e antigo presidente da República, há cem anos, sobretudo do seu litoral; este seu colega monchiquense, muito mais jovem, da sua serra hoje mesmo. É júbilo grande voltar a pousar olhos nesta prosa encantatória e na dos livros posteriores. E ganhar impaciências pueris por novos livros seus, a rescender à pasta de eucalipto com que a sua serra foi travestida e à tinta fresca que mancha fértil o branco das suas páginas.
Vou-me embora que se faz tarde. Sua excelência o senhor «Presidente da República» está à minha espera, uma vez mais. E não é nada protocolar fazê-lo esperar…

Sem comentários:

Enviar um comentário